segunda-feira, 4 de junho de 2012

JANUSZ KORCZAK


O pioneiro em defender os direitos das crianças

Kelly Meneses
Livia Sampaio
Thais Neto


BIOGRAFIA
Janusz Korczak nasceu em 1878 na cidade de Varsóvia, Polônia, e seu nome de batismo era Henryk Goldszmit. Adotou esse pseudônimo pela primeira vez para participar de um concurso literário, quando ainda era estudante da 8ª série. O nome foi inspirado no herói do romance “Janasz Korczak e a filha do cavaleiro bonito”, de Józef Ignacy Kraszewski.
Os pais de Korczak eram de uma família abastada e etnicamente judia. Neste contexto familiar, sua infância foi tudo menos alegre, pois há relatos de que seu pai o ofendia verbalmente com insultos e sua mãe o mimava e reprimia.
Começou sua vida escolar aos sete anos, em uma escola onde os mestres adotavam métodos punitivos (puxavam as orelhas das crianças e se valiam de réguas e palmatórias) para manter a ordem e a organização da instituição.
Quando Korczak chegou à idade de onze anos, seu pai começou a sofrer uma série de colapsos nervosos que culminaram no empobrecimento da família. Aos 18 anos, ele perde o pai, que morre num hospício (supostamente suicídio).
Acreditamos que tais experiências - familiar e escolar - deram forma à causa que Korczak abraçou por toda a sua vida: de que, desde cedo, as vontades e necessidades das crianças precisam ser respeitadas.
Assim, ele repudiou frequentemente a tirania dos poderosos sobre os fracos, dos ricos sobre os pobres, dos adultos sobre as crianças, bem como adotou a postura de reformar a sociedade e ajudar os necessitados. No livro Janusz Korczak, de Tadeusz Lewowicki, Jaime Murahovschi & Helena Singer (1998, p. 96), há uma citação de Korczak que revela essa postura:





“Não posso viver confortavelmente. Sinto vergonha de ter o que comer quando sei que as crianças têm fome, tenho desgosto de sorrir, quando vejo ao meu redor faces jovens atormentadas.”
(KORCZAK)



Para cumprir sua “missão”, em 1898, Korczak ingressou no curso de medicina, especializando-se em pediatria. No período em que cursou a universidade, ele atendeu pacientes abastados, cobrando caro por suas consultas, de modo que pudesse “compensar” suas idas aos cortiços e favelas para tratar dos pobres.
Nesse período, Korczak também começou a escrever e publicar suas experiências entre a população carente, a fim de chamar a atenção para a essa condição deplorável. Tornou-se conhecido por toda a Polônia como o médico que cuidava dos miseráveis e advogava a causa das crianças. Segundo Mark Bernheim (1989), citando Korczak:
“Nunca vi cena mais cruel do que a de um bêbado que espanca uma criança ou do que a de uma criança que entra num bar e implora: ‘- Papai, vem pra casa!”’.

Em 1901, viajou para Zurique, a fim de aprofundar seus estudos sobre a obra de Pestalozzi, que sugeria uma educação não-repressiva e sem ser firmada no medo. Lá conheceu Stefa Wilczinska. Influenciado por ela, começou a frequentar a faculdade de pedagogia, sendo profundamente influenciado pelos pensadores da Escola Nova.

Também trabalhou como médico do exército na Guerra Russo-japonesa. E, posteriormente, atuou como médico do exército com a patente de tenente na 1ª Guerra Mundial. Nesse período aproveitou para escrever sobre as crianças, produzindo um dos seus livros mais importantes “Como amar uma criança”.
Em 1912, Korczak tomou a difícil decisão de deixar a prática da medicina numa clínica infantil para se tornar diretor e médico de um novo orfanato judeu conhecido como “Lar das Crianças”, em Varsóvia, o qual abrigava, inicialmente, 106 crianças, filhas de agricultores. Paralelamente, também assessorou uma escola interna não judia, de filhos de operários, o “Nosso Lar”. (HOTIMISKY, Sonia e HOTIMISKY, Silvio, 1993, p. 12)
Korczak dirigiu os dois orfanatos conforme a “Children’s Republic” (República das Crianças), enfatizando a importância de se respeitar as crianças e permitir-lhes governar a si mesmas.

“A um adulto ninguém diz: “dê o fora”, mas a criança ouve isso tantas vezes. É sempre assim: um adulto está sempre ocupado, a criança está zanzando à toa; o adulto tem senso de humor, a criança faz palhaçadas; o adulto sofre, a criança choraminga ou berra; o adulto tem movimentos rápidos, a criança é agitada; o adulto está triste, a criança está de cara feia; o adulto é distraído, a criança vive no mundo da lua. O adulto ficou mergulhado nos seus pensamentos, a criança é abobalhada. O adulto faz alguma coisa pausadamente, a criança se arrasta, demora. É uma linguagem que pretende ser engraçada, mas resulta em indelicadeza. Pirralho, fedelho, bobalhão – mesmo quando não querem brigar com a gente, quando querem ser afetuosos. Azar, a gente acaba se acostumando, mas este menosprezo é desagradável e às vezes irrita.” (KORCZAK, 1981, p. 94)

Entre 1934–1936, Korczak viajou anualmente para a Palestina para visitar os kibutzim (comunidades agrícolas) a convite dos seus ex-alunos. Isso o levou a parar de trabalhar na escola internanão judia em que atuava.
Em 1939, com o início da 2ª Guerra Mundial, Korczak tentou se alistar no exército polonês, mas foi recusado devido a sua idade (51 anos). Nesse período, Varsóvia foi tomada pelos alemães e Korczak foi obrigado a deslocar suas crianças para o Gueto. Alguns autores relatam a ação política e social de Korczak nesse momento:
“Este grande educador não só conseguiu manter o funcionamento pleno das atividades educacionais no orfanato, como também assumiu inúmeras tarefas como ativista social, como sempre fez durante toda a sua vida. Em vários momentos Korczak, como renomado educador, médico e escritor, teve ofertas individuais para escapar do gueto, mas recusou-se terminantemente, ligando seu destino, voluntariamente, ao das 200 crianças do seu orfanato.” (HOTIMISKY, Sonia e HOTIMISKY, Silvio, 1993)

Por dois anos Korczak e sua equipe se esforçaram para cuidar de suas crianças. Ele se dirigiu às pessoas para pedir comida, bateu de porta em porta para levantar donativos e improvisou recursos para tratamento médico. Para preservar uma certa aparência de normalidade e manter o moral das crianças elevado, Korczak deu continuidade às atividades da rotina diária das crianças, inclusive as práticas de dar recitais de música e de fazer apresentações teatrais.
Em 1942, Korczak manteve o registro de um diário sobre o Gueto por três meses, o qual mais tarde foi encontrado. Citado no livro de Mark Bernheimesse (1989), nesse diário ele escreveu:

“Eu existo não para ser amado e admirado, mas sim para que eu mesmo aja e ame. Não é dever dos que estão ao meu redor me auxiliar, ao contrário sou compelido pelo dever de cuidar do mundo, cuidar do ser humano.”

Em 05 de agosto deste mesmo ano, aqueles 200 órfãos marcharam lado a lado em quatro fileiras sob a liderança de Korczak, rumo aos vagões de carga que os levariam para os campos de concentração de Treblinka.
Vale lembrar, que apesar das ofertas anteriores de isenção pessoal e salvo-conduto, Korczak permaneceu nas suas incumbências, afirmando:
“Não se abandona uma criança doente ou carente durante a noite. Eu tenho duzentos órfãos; num momento como esse, vou ficar ao lado deles a cada minuto.” (In:BERNHEIM, Mark, 1989, p. 131)
Korczak escreveu vários livros: “Como amar uma Criança” (1ª Sistematização de sua concepção pedagógica, de 1919), “ O Rei Mathias 1º” e “ O Rei Mathias em uma ilha deserta” (livros infantis, de 1923), “ Quando eu voltar a ser criança” (1925), “ O Direito da criança ao respeito” (1929), sendo este último o que viria a inspirar a Declaração dos Direitos das Crianças, da Organização das Nações Unidas (ONU).
Foi neste contexto familiar, escolar e histórico, que Korczak desenvolveu seu pensamento e sua prática em prol da infância.

CONCEPÇÃO DE INFÂNCIA
                                                                                               “A criança é o infinito.
                                                                                               A criança é a eternidade.
                                                                                               A criança, uma poeira no espaço.
                                                                                               A criança, um momento no tempo.”
                                                                                                                      (KORCZAK, 1983, p. 33)

Ao longo de sua trajetória como médico-educador, Korczak elaborou uma nova concepção de infância, ensinando e praticando o amor à criança para além de um sentimento romântico e nocivo (super-protetor), concebendo-o como um amor pedagógico que leva em consideração a complexidade do desenvolvimento e das especificidades da criança, defendendo os seus direitos e repudiando as relações de tirania do adulto sobre ela.
Segundo ele:
“Vocês dizem:
– Cansa-nos ter de privar com crianças.
Tem razão.
Vocês dizem ainda:
– Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão.
Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.
Estão equivocados.
– Não é isto o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças.
Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las. “
(KORCZAK, 1970, p. 11)
Além disso, Korczak defendia a ideia de que era preciso pensar a infância, não como um período de desenvolvimento cujo fim é preparar para a idade adulta, e sim como um estágio da vida tão importante quanto a maturidade. Em um de seus livros, ao narrar o mundo sob o ponto de vista da criança, relatou:

“(...) o que magoa é que todos os nossos assuntos são liquidados às pressas e de qualquer maneira, como se para os adultos a nossa vida, as nossas preocupações e insucessos não passassem de acréscimos aos problemas verdadeiros que eles têm. É como se existissem duas vidas: a deles, séria e digna de respeito; e a nossa, que é como se fosse de brincadeira. Somos menores e mais fracos; daí, tudo o que nos diz respeito parece um jogo. Por isso o pouco caso. As crianças são homens do futuro. Quer dizer que eles existirão um dia, mas por enquanto é como se ainda não existissem. Ora, nós existimos: estamos vivos, sentimos, sofremos. Nossos anos de infância são anos de uma vida verdadeira. Por que nos mandam aguardar, e o quê? E eles, os adultos, será que se preparam para a velhice? Não desperdiçam levianamente as suas forças? Gostam, acaso, de ouvir as advertências de velhos ranzinzas?”  (KORCZAK, 1981, p. 152)

            Foi compreendendo a criança como sujeito de direitos, que Korczak construiu sua concepção de infância.

O LAR DAS CRIANÇAS
O Lar das Crianças foi fundado em Varsóvia, mais especificamente na Rua Krochmalna, em 1912. A ideia de criar o Lar das crianças surgiu após Stefa Wilczinska alugar duas salas em Varsóvia e chamar Korczak para trabalhar como pediatra. Por acharem que ainda não era chegada a hora, ambos viajaram por muitos países como Suíça, Itália, Holanda e Dinamarca, com o intuito de conhecer diferentes orfanatos e seus sistemas de educação.
A estrutura física do Lar das Crianças era simples. Inicialmente, contava com salas de estar e refeição, banheiros, uma biblioteca, dormitórios para as crianças e professores, além de uma sala silenciosa com vários quadros e um aquário dedicados à meditação.
Atendendo o princípio de Janusz Korczak de que só a liberdade conduz à felicidade, o Lar empregava como instituições base: o Tribunal, o Parlamento e o Jornal “O Semanário”. O primeiro garantia a proteção dos pertences, a higiene, a ordem e os direitos dos alunos. Através dele era possível pesquisar, investigar e interrogar, podendo-se chegar, até mesmo, à expulsão em casos em que o perdão não fosse mais possível. O segundo, tendo Korczak como Presidente Honorário, contava com cerca de vinte deputados, um secretário, uma comissão legislativa com cinco membros e um vice- presidente. O parlamento tinha a finalidade de decidir todas as normas do local de acordo com a Constituição criada pelas crianças. E no terceiro, circulavam temas referentes a acontecimentos e problemas ocorridos no cotidiano do orfanato.
O Lar das crianças foi e ainda é o resultado de toda uma ação em busca de novos caminhos para a educação.

CONTRIBUIÇÕES PARA A EDUCAÇÃO
- Korczak não possuía métodos, pois acreditava que a educação se fazia através da dialética do cotidiano;
- Importância dos registros sobre a prática e os acontecimentos no orfanato;
- Seu modo de pensar a educação era baseado na compreensão das necessidades mais profundas da criança;
- Defendia uma educação não repressiva, onde o medo não deveria se confundir com respeito;
- Segundo Korczak, o papel de um pai ou professor não é impor metas para a criança, mas sim ajudá-la a alcançar seus próprios objetivos;
- As crianças eram incentivadas a conhecerem os ideais de justiça, o respeito aos semelhantes, a obrigação de responder pelas próprias ações e as dos outros, e as regras sociais;
- Gestão participativa.

Apresentação em Power Point
A apresentação elaborada pelo grupo encontra-se disponível em: http://www.slideshare.net/perseusilva/janusz-korczak-13201711

BIBLIOGRAFIA
BERNHEIM, Mark, Father of the Orphans: The Story of JanuszKorczak. Nova York: E. P. Dutton, 1989.
KORCZAK, Janusz. Quando eu voltar a ser criança. 14 ed. São Paulo: Summus, 1981. 155 páginas.
________________. Como amar uma criança/JanuszKorczak; prefácio de Bruno Bettelheim; apresentação de S. Tomkiewiez; tradução de Sylvia Patricia Nascimento Araújo. – Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1983.
HOTIMISKY, Sonia Nussenzweig; e HOTIMISKY, Silvio,JanuszKorczak e a Republica das Crianças. Shalom Documento – Suplemento Especial da Revista Shalom, São Paulo, v. 299, p. 57-65, 01 out. 1993 Disponível em http://www.ajkb.org.br/artigos/2.html. Acesso em: 26 maio. 2012.
LEWOWICKI, Tadeusz; MURAHOVSCHI, Jaime & SINGER, Helena. Janusz Korczak. São Paulo: Edusp, 1998.
SILVA, Taís Oliveira de Amorim da. Desaprendendo a ver: Representações da Linguagem Discente na Escola da Ponte. Taís Oliveira de Amorim da Silva. – 2007.vii, 145 f.Dissertação (Mestrado em Educação) –Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Educação,
Programa de Pós-Graduação em Educação, Rio de Janeiro, 2007.
WASSERTZUG, Zalman. Janusz Korczak – Mestre e Mártir. São Paulo: Summus.

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